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Rigidez Cognitiva nas Neurodivergências

  • 15 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

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Rigidez Cognitiva nas Neurodivergências


Rigidez cognitiva é o que ocorre quando o cérebro entra no “modo trilho” (pois não consegue mudar de direção com facilidade), mesmo quando a mudança é faz sentido. Nas neurodivergências, isso não é birra, preguiça ou falta de educação: é um funcionamento cerebral diferente, ligado principalmente às funções executivas, à forma como o cérebro lida com novidades, com frustrações e com mudanças de planos. Essa rigidez pode gerar sofrimento para a criança, para a família, para a escola e até para os profissionais, mas também pode ser um ponto de partida poderoso para intervenções mais humanas e eficazes.


O que é rigidez cognitiva, na prática

Rigidez cognitiva é a dificuldade de flexibilizar pensamentos, emoções e comportamentos diante de algo novo, de uma mudança de regra ou de um imprevisto. O cérebro resiste em ajustar respostas para aquela situação, e se mantém na mesma ideia ou padrão, como se não conseguisse enxergar novas respostas ou alternativas para a situação em que se encontra.


 Conseguimos perceber essa manifestação em situações como: não aceitar mudanças na rotina, insistir que “sempre foi assim”, travar diante de uma nova forma de explicar um conteúdo, recusar-se a tentar outra estratégia de resolução de um problema, ou ter crises intensas quando algo foge do esperado.


O mais importante é entender que, para muitas crianças e adolescentes neurodivergentes, essa rigidez é uma resposta de proteção: mudar dói, desorganiza, e causa sensação de perda de controle.

Rigidez cognitiva nas diferentes neurodivergências

Embora cada neurodivergência tenha características próprias, a rigidez cognitiva aparece em muitas delas como um fio condutor. Em crianças autistas (TEA), pode surgir na insistência em rotinas, na preferência por temas restritos, na dificuldade com mudanças de ambiente, de professor ou na forma de brincar. Em TDAH, a rigidez pode estar camuflada por impulsividade: a criança até muda de foco, mas se agarra a um jeito de reagir às frustrações, explode sempre da mesma forma, enfrentando assim os mesmos conflitos.


Na dislexia, a rigidez pode aparecer como insistência em estratégias de leitura que já não funcionam, dificuldade em aceitar novos jeitos de aprender, medo de experimentar outras abordagens, recusa de atividades que exigem leitura em público. Em perfis com TOD ou comportamentos opositores, a rigidez se expressa como luta por controle: dificuldade extrema de ceder, interpretar regras como tudo ou nada, entrar rapidamente em modo de confronto quando algo muda.


E a Rigidez Cognitiva pode se manifestar também em outros perfis de neurodesenvolvimento, tais como: crianças com dificuldades de linguagem, com altas habilidades, com transtornos do processamento sensorial, apresentando-se em maior ou menor intensidade dependendo da situação que se enfrenta.



Como a neurociência nos ajuda a superar a Rigidez Cognitiva?

A neurociência mostra que flexibilidade cognitiva é a capacidade mental de adaptar pensamentos e comportamentos a ambientes e situações que mudam, alternando entre conceitos, estratégias e perspectivas, e é essencial para a resolução de problemas e para lidar com imprevistos. Essa Flexibilidade Cognitiva depende de redes cerebrais, através das funções do córtex pré-frontal, tais como atenção, controle inibitório, memória de trabalho e sistemas de recompensa. Em muitas neurodivergências, essas redes se organizam de forma diferente: algumas conexões são mais fortes, outras mais frágeis, e alguns caminhos são preferenciais.


 A neurociência tem contribuído para entender a rigidez cognitiva, mostrando que ela não é apenas um traço de personalidade, mas um jeito específico de o cérebro organizar controle, atenção, emoção e aprendizagem.


Estudos com neuroimagem, avaliações neuropsicológicas e intervenções em funções executivas têm ajudado a construir um modelo em que rigidez e flexibilidade dependem de redes cerebrais complexas, e não apenas de “força de vontade”.

Quando o cérebro se sente ameaçado, ele enrijece ainda mais a resposta. Por outro lado, quando se oferece previsibilidade, apoio visual, pequenas doses de mudança e reforço positivo, o cérebro começa a aceitar experimentar outras rotas. Ao longo do tempo, a prática repetida e significativa de flexibilidade vai moldando essas redes, aumentando a capacidade de adaptação.


Funções executivas e córtex pré-frontal


Pesquisadores como Adele Diamond e outros autores da área mostram que flexibilidade cognitiva é um componente central das funções executivas, junto com controle inibitório e memória de trabalho, coordenados principalmente pelo córtex pré-frontal. Revisões sobre funções executivas destacam que essas habilidades são responsáveis por mudar de estratégia, abandonar respostas que já não funcionam e se adaptar a novas regras, exatamente o que fica comprometido na rigidez.


Estudos de neuroimagem indicam que regiões como o córtex pré-frontal dorsolateral, o córtex orbitofrontal e o córtex cingulado anterior são ativadas quando a pessoa precisa trocar de regra, mudar de resposta ou rever uma escolha após um feedback negativo. Quando essas áreas funcionam de forma diferenciada ou menos coordenada, como ocorre em muitos quadros do neurodesenvolvimento, a tendência é permanecer na mesma estratégia, mesmo quando ela já não é adaptativa.


Redes neurais e tarefas de flexibilidade

Trabalhos de revisão sobre flexibilidade cognitiva descrevem que ela envolve processos dinâmicos que permitem ajustar pensamento e comportamento às demandas do contexto, e que diferentes tarefas que exigem mudança de atenção, recrutam redes parcialmente distintas. Pesquisas mostram que, além do córtex pré-frontal, regiões parietais e junções fronto-parietais participam da mudança de foco atencional e da atualização de regras, compondo circuitos de controle cognitivo mais amplos.


Autores que investigam autismo, por exemplo, descrevem que maior inflexibilidade em testes de flexibilidade está ligada a mais problemas emocionais e comportamentais, o que faz da flexibilidade um alvo importante para intervenção, e não apenas uma curiosidade de pesquisa. Essa visão amplia o foco: em vez de olhar apenas para diagnósticos separados, a neurociência propõe estudar processos comuns, como a rigidez, para entender padrões que atravessam diferentes rótulos clínicos.


A importância das intervenções baseadas em Neurociência

As intervenções fundamentadas na neurociência são essenciais para que as propostas pedagógicas deixem de ser genéricas, e passem a responder de forma precisa ao que acontece no cérebro da criança neurodivergente com rigidez cognitiva. Em vez de focar apenas em comportamento visível “obedece” ou “não obedece”, o professor passa a planejar práticas que fortaleçam funções executivas, flexibilidade mental e regulação emocional, pilares diretamente ligados a essa rigidez.


Compreendendo que não é indisciplina, mas comportamento cerebral

A neurociência mostra que rigidez cognitiva está ligada a redes do córtex pré-frontal responsáveis por flexibilidade, controle inibitório e adaptação a mudanças, que se organizam de forma diferente em muitas neurodivergências. Isso muda o olhar pedagógico: o aluno deixa de ser visto como “teimoso” ou “preguiçoso” e passa a ser entendido como alguém cujo cérebro tem dificuldade real em trocar de plano, aceitar surpresa ou abandonar uma regra interna. Essa mudança de paradigma abre espaço para estratégias de apoio, em vez de punições que apenas aumentam o estresse e endurecem ainda mais a rigidez.


Planejamento de atividades que treinam flexibilidade

Pesquisas sobre funções executivas indicam que flexibilidade pode ser treinada por meio de tarefas de mudança de regras, alternância de critérios e resolução de problemas em diferentes formatos. Quando a escola incorpora, de forma intencional, jogos e propostas que exigem mudança de foco, como atividades com regras que mudam, múltiplas formas de resolver um mesmo desafio, rotinas com pequenas variações planejadas, está usando diretamente evidências da neurociência para fortalecer essas redes em sala de aula. Assim, a intervenção não é só comportamental, mas neurocognitiva: o cérebro aprende a lidar com mudanças de forma menos ameaçadora.


Adaptação de ambiente e tempo de aprendizagem

Estudos mostram que crianças com dificuldades de flexibilidade precisam de mais previsibilidade, avisos graduais de transição e apoio visual para conseguir mudar de atividade sem entrar em colapso. Ao estruturar rotina visível, sinalizar transições com antecedência e usar pistas visuais e sensoriais consistentes, o professor reduz a carga sobre as funções executivas, liberando recursos para o aluno treinar flexibilidade sem ficar em estado de alerta o tempo todo. Isso é uma aplicação direta do conhecimento sobre como redes pré-frontais se sobrecarregam em contextos caóticos ou imprevisíveis, especialmente em crianças neurodivergentes.


Intervenções que integram emoção, corpo e cognição

A neurociência também mostra que flexibilidade cognitiva depende de regulação emocional e corporal: um cérebro em modo de ameaça tende a ficar mais rígido e menos capaz de mudar de estratégia. Propostas pedagógicas que incluem espaços de regulação, pausas sensoriais, movimento organizado e linguagem que valida emoções, utilizam esse conhecimento para criar condições biológicas favoráveis à aprendizagem flexível. Com isso, o foco sai da ideia de “controlar comportamento” e vai para “regular o sistema nervoso para que a flexibilidade seja possível”.


Educação mais inclusiva e baseada em evidências

Ao integrar intervenções da neurociência, a pedagogia passa a olhar para a rigidez cognitiva como um alvo de ensino, não apenas como um obstáculo. Isso favorece práticas mais inclusivas: adaptações de tarefas, tempos diferenciados, uso de interesses da criança como pontes para mudanças, tudo embasado em como o cérebro aprende e se adapta. A importância central é que o professor deixa de agir “no achismo” e passa a planejar intencionalmente experiências que promovem neuroplasticidade, ampliando a autonomia e a participação de alunos neurodivergentes em sala de aula.


A neurociência nos mostra que a rigidez cognitiva nas neurodivergências não é apenas teimosia ou birra, mas revela um cérebro que prioriza caminhos neurais familiares para buscar segurança em um mundo imprevisível, com redes pré-frontais e circuitos executivos que demandam suporte específico para se adaptarem. A neurociência, ao mapear essas dinâmicas por meio de estudos de neuroimagem e funções executivas, transforma o desafio em oportunidade: intervenções que treinam flexibilidade como rotinas com variações graduais, jogos de alternância e regulação emocional promovem neuroplasticidade real, fortalecendo conexões sinápticas e reduzindo crises comportamentais e sofrimento interno.


Nas práticas pedagógicas, essa ciência possibilita a transformação da sala de aula, de um ambiente de cobrança e pressão para um espaço onde a neuroaprendizagem se torna intencional, e os professores planejam conteúdos que promovem a aprendizagem significativa, mas também o treino das habilidades executivas que beneficiam todos os alunos, e mais significativamente os neurodivergentes. Quando o professor integra previsibilidade, apoio visual e microdesafios lúdicos, exercendo assim a pedagogia baseada em evidências, garante que a rigidez cognitiva, ao invés de impedir o aprendizado, promova a autonomia e engajamento de todos os alunos.


A inclusão com qualidade surge exatamente dessa ponte: quando escola, família e terapia alinham olhares à neurociência, criam ambientes que valorizam a diversidade cerebral, promovem microprogressos e constroem relações com a capacidade de compreender, sentir e compatilhar as experiências e sentimentos do outro. Assim, crianças neurodivergentes não apenas toleram mudanças, mas desenvolvem-se nelas, provando que compreender o cérebro é o primeiro passo para um mundo verdadeiramente acolhedor e transformador.


Cristiane Dluhosch

Pedagoga – Psicopedagoga

Especialista em Intervenção, Estimulação e Reabilitação Cognitiva


• DIAMOND, ADELE; Prefrontal Cortex Cognitive Déficits in Children Treated 

• Early and Continuously for PKU; 252 v. 62, n. 4 - University of Chicago Press.


 

 

 

 













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